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quarta-feira, agosto 16, 2023

MAIS UM

                            Adélia Prado

Queria mais um amor. Escrevi cartas,

remeti pelo correio a copa de uma árvore,

pardais comendo no pé um mamão maduro

— coisas que não dou a qualquer pessoa —

e mais que tudo, taquicardias,

um jeito de pensar com a boca fechada,

os olhos tramando um gosto.

Em vão.

Meu bem não leu, não escreveu,

não disse essa boca é minha.

Outro dia perguntei a meu coração:

o que que há durão, mal de chagas te comeu?

Não, ele disse: é desprezo de amor.



domingo, janeiro 10, 2021

Manoel, foi pro céu


Manoel de Barros (1916-2014), poeta brasileiro, um dos principais autores contemporâneos do país. Nasceu em Cuiabá e cresceu na fazenda da família, no Pantanal, tema constante de suas poesias.  Formou-se em Direito no Rio de Janeiro e depois viajou para Peru, Bolívia e Estados Unidos onde fez curso de cinema e artes plásticas. Em 1989 ganhou o Prêmio Jabuti com a obra "O Guardador de Águas". 

A natureza é frequentemente citada em seus poemas, bem como neologismos, o uso de linguagem simples e às vezes surrealista.

Em 1947 Manoel de Barros casou-se com Stella Barros e juntos tiveram três filhos: Pedro, João e Marta. João morreu em 2008 e Pedro em 2013. Manoel faleceu em 2014 aos 97 anos e Stella se foi em 2020 aos 99 anos. 


"A mãe reparou que o menino

gostava mais do vazio

do que do cheio.

Falava que os vazios são maiores

e até infinitos."

 

Biografia do orvalho 

A maior riqueza do homem é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como sou — eu não
aceito.
Não aguento ser apenas um sujeito que abre
portas, que puxa válvulas, que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde, que vai lá fora,
que aponta lápis, que vê a uva etc. etc.
Perdoai.
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem usando borboletas.



 

Uma didática da invenção

          O rio que fazia uma volta

atrás da nossa casa

era a imagem de um vidro mole...

Passou um homem e disse:

Essa volta que o rio faz...

se chama enseada...

Não era mais a imagem de uma cobra de vidro

que fazia uma volta atrás da casa.

Era uma enseada.

Acho que o nome empobreceu a imagem.



domingo, junho 01, 2014

Pés e sonhos

Um pouco do grande Yeats

Resultado de imagem para treading on clouds



Fossem os tecidos bordados dos céus
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.

William Butler Yeats

HAD I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.

W.B. Yeats (1865–1939)